03/03 - Em honra a São José - excertos do livro

SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja
Pe. Maurício Meschler, S.J.
Edição de 1943



1.     ESPOSO DE MARIA 

Homem da dextra de Deus”, São José não se perturbava nem preocupava com planos e projetos relativos ao futuro. De antemão, estava resolvido a observar a lei divina, a cumprir fielmente todos os seus deveres. Aguardava, confiante, as indicações da Providência. Eis a melhor maneira de se preparar para uma vocação verdadeiramente divina. De fato, chegado o momento, a Providência não hesitou em pronunciar-se.

São José tornou-se o esposo da Virgem Maria. Ignoramos as circunstâncias precisas.
Nossas informações cingem-se a algumas palavras da Sagrada Escritura, aos textos de alguns Padres, às conjecturas dos teólogos, a lendas, graciosas sem dúvida, mas muito incertas. Diz-nos simplesmente a Escritura que José era o esposo de Maria, de quem nasceu Jesus, chamado Cristo (Mt 1,16); que o anjo o animou a tomar Maria por sua mulher (Mt 1,20); que ele desposara a Virgem Maria antes do dia da Anunciação (Lc 1,27). À míngua de outras fontes e testemunhos, podemos, no que concerne a Maria, estabelecer, com relativa certeza, três pontos que nos informam mais exatamente sobre esse matrimônio.
Primeiramente, Maria, como José, descendia da família de Davi. Isso consta da tradição e do próprio texto sagrado (Lc 1,32). Ela pertencia, sem a menor dúvida, a um dos dois ramos dessa família de que São Mateus e São Lucas dão a genealogia.
Em segundo lugar. Maria era a herdeira de um dos ramos da família de Davi. Em parte alguma se fala de que ela teve irmãos; pelo contrário, aliás, São José não a teria levado consigo para- Belém; mas é que, na sua qualidade de herdeira, ela teve de se fazer inscrever para o censo. Finalmente, no Calvário, o Salvador confiou Maria ao discípulo bem-amado, prova de que, ao menos naquele momento, Maria não tinha irmãos.
Em terceiro lugar, Maria fizera voto condicional ou incondicional de guardar perpétua virgindade. Outro sentido não pode ter a sua resposta à mensagem do anjo anunciando-lhe que ela seria a mãe do Messias (Lc. 1,34).Ora, essa resposta é evidentemente posterior ao seu noivado com São José (Lc. 1,27).
As profecias haviam anunciado que o Messias nasceria de uma virgem (Is 7,14), porquanto o nascimento virginal era o único digno do Filho de Deus.
Como foi que, nessas circunstâncias, Maria esposou São José? Segundo certos autores, os pais de Maria, e sobretudo os sacerdotes, cujo dever era velar pela observância da lei e, mais particularmente, pela conservação das antigas famílias, teriam imposto à descendente de Davi a obrigação de escolher um marido na sua parentela. Vendo nessa ordem a vontade do próprio Deus, Maria obedeceu. Outros autores resolvem a questão dum ponto de vista mais elevado. Segundo eles — e parece que a Igreja é deste parecer, visto falar no Ofício dos Desposórios  de Maria e José de uma admirável intervenção da Providência — esse casamento foi muito especialmente propiciado pela Divina Providência que, na sua sabedoria e no seu poder, e em vista da Encarnação do Filho de Deus, achou meios de unir aquelas duas santas almas pelos laços do matrimônio, embora José, tal como Maria, tivesse resolvido viver em perpétua virgindade. Deus lhes revelou que, nas disposições em que ambos estavam, o matrimônio contraído não seria obstáculo ao voto; que a sua vontade era vê-los concluir essa união para guardarem nela santamente a promessa que haviam feito.
Numerosos Padres e teólogos eminentes sustentaram essa opinião. Efetivamente, corresponde ela à Providência, que sabe fazer concorrerem para os seus intuitos os próprios obstáculos. O intuito, no presente caso, era a Encarnação do Verbo. Deus escolhera uma Virgem para ser sua Mãe; não podia dar a essa Virgem senão um esposo virginal. Ouçamos Santo Agostinho: Justo era o esposo ,justa era a esposa; o Espírito Santo, que se comprazia na justiça de ambos, deu-lhes um Filho”. — A virgindade é justiça em sentido mais elevado, visto ser simplesmente de conselho.
Realizaram-se os esponsais ou em Jerusalém, onde a família de Maria possuía uma casa, ou em Nazaré. Segundo o costume, quando era aceito o pedido para casamento apresentado por um intermediário, o noivo, em presença da família e dos pais, dava ao pai ou ao tutor da moça um ramo ou alguma joia, como penhor da sua promessa, ou então os dois noivos exprimiam por algumas palavras o seu consentimento recíproco. É muito possível que José e Maria tenham observado esse uso.
A Virgem contaria então cerca de quinze anos. Possuía como dote a graça e a beleza, um espírito cultivado pela educação recebida no Templo. Sua alma — sabemo-lo pela fé — possuía dons maravilhosos e virtudes de uma excelência incomparável. Quanto a São José, ignoramos qual a sua idade. Mas Deus faz tudo com sabedoria e medida. Assim sendo, podemos admitir que José era mais idoso que Maria e estava talvez na madureza da idade, mas não era nenhum velho. Em seus quadros, os mais antigos mestres representam-no sem barba. Pelas razões que acabamos de lembrar, ele certamente era de um exterior cheio de nobreza e notavelmente dotado de qualidades excelentes de espírito e de coração. Sob todos os pontos de vista, deveria ele ser o chefe da Sagrada Família, seu arrimo e seu conselho nas dificuldades e provações.
Consoante expressiva lenda conservada por um documento antigo, os sacerdotes, obedecendo a uma revelação especial, teriam decidido que, pela mesma maneira como Aarão fora outrora escolhido para exercer as funções de sumo sacerdote, todos os moços da família de Davi depositariam no limiar do Santo dos Santos um ramo ou uma haste. Aquele cujo ramo florisse, e sobre o qual o Espírito Santo descesse visivelmente, seria chamado à honra de tornar-se esposo da Virgem Maria. Só São José, ou por humildade, ou por amor à virgindade, não trouxe ramo algum; por isso, Deus não manifestou a sua vontade. Os sacerdotes interrogaram então o Senhor: este respondeu que um homem da casa de Davi faltara ao apelo. José teve de obedecer: e eis que o ramo por ele trazido cobriu-se de flores, o Espírito Santo veio pousar nele, e São José se tornou-se o feliz esposo de Maria! Por isso, nos quadros dos antigos mestres, ele é representado segurando uma haste coroada de flores, sobre a qual repousa o Espírito Santo.
O sentido simbólico desse casamento encerra um caráter superior, verdadeiramente sacerdotal: o próprio Deus, o Espírito Santo, manifesta a sua escolha, e só o amor à virgindade une para a vida inteira aqueles dois corações tão nobres e tão puros — Maria e José. Aos olhos de Maria, a virgindade era o penhor precioso que José lhe oferecia para lhe obter a mão. Foi pois, a virgindade que selou essa união. É o que significa o ramo de lis que a arte cristã dá a São José como um de seus atributos característicos.
Segundo a lei judaica, os esponsais constituíam o vínculo conjugal. A introdução da noiva na morada do esposo, ou os desposórios, não passava de uma simples confirmação, mais solene, do primeiro contrato.
Essa solenidade, porém, efetuar-se-ia mais tarde e não passaria sem uma dolorosa provação para José e Maria. O noivado foi seguido do grande e santo mistério da Encarnação, mistério de importância decisiva para ambos. José ignorava-o e Maria nada lhe disse.
Logo após a Anunciação, a Virgem, por ordem do anjo, foi a Ain Kariin visitar sua prima Isabel, a primeira a ser instruída sobre o mistério da Encarnação, como foi a primeira a retirar dele os frutos da graça. Sem dúvida alguma, não estava presente São José, do contrário teria chegado, por força das circunstâncias, a saber do mistério. Cerca de três meses mais tarde, Maria voltou a Nazaré e, pouco a pouco, sinais exteriores começaram a revelar a maravilha que se realizava nela. José não pode deixar de percebê-lo. Que dolorosa surpresa! Entretanto, apesar de tudo, apesar da provação sofrida pela sua confiança, ele tinha sobeja estima a sua noiva. Estava convencido da sua santidade e perfeita virgindade, para duvidar seriamente da sua inocência. Guardava, pois, silêncio. Por seu lado,Maria nada dizia.
Da parte da Mãe do Salvador, esse silêncio só se podia explicar por um sentimento de delicado pudor, de humildade, de heróica confiança em Deus, a quem ela entregara o cuidado de todas as coisas. E São José se calava por um sentimento de nobreza, por deferência para com Maria, cuja virtude conhecia. Antes de conceber a menor dúvida sobre a pureza de sua noiva, quis ver em tudo aquilo uma maravilha cuja solução lhe escapava.
Contudo, urgia tomar uma decisão. Podia citar Maria perante os tribunais. Podia,perante algumas testemunhas, fazer-se desligar da sua palavra sem apresentar motivo. Mas, em ambos os casos, era isso comprometer mais ou menos a honra de Maria, e seu coração recusava-se a isso. Pareceu-lhe de melhor alvitre, apesar da dor que ele com isso sentiria, deixar secretamente sua noiva e abandonar toda a questão à Divina Providência. Firmou-se nesta decisão, preferindo ver-se ele próprio acusado de faltar à sua promessa, a deixar a sombra de uma suspeita empanar a honra de Maria.
É nessas circunstâncias; que José nos aparece pela primeira vez no Evangelho. Semelhante aos anjos, ele é inacessível aos baixos sentimentos da ira, ia ciúme e da vingança, paixões tão facilmente inflamáveis entre os orientais. Permanece plenamente senhor de si. Dá prova de uma sabedoria e de uma prudência celestiais e, sobretudo, é excelentemente “justo”.
A despeito de todas as aparências, não se abalança a julgar desfavoravelmente o próximo. É, pois, com toda a razão que o Evangelho lhe confere aqui o nome de “justo” (Mt 1,19). Já o dissemos: Deus escolhera bem. São José era digno de ser esposo de Maria, pai legal de Jesus, chefe da Sagrada Família. Seu procedimento nessa circunstância já nos revela que nele existia um grau extraordinário de perfeição e santidade.
Nessa altura, o próprio Deus interveio. Ele prova os seus, mas não abandona os que nele confiam. Num sonho profético que oferecia a certeza de uma aparição visível, enviou um anjo a São José, revelando-lhe por essa mensagem três coisas: primeiro, o anjo tranquiliza José a respeito de sua noiva: ela é irrepreensível e santa; o que nela se efetuou é obra de Deus e do Espírito Santo. Segundo, o anjo faz saber a José que o Menino dado à Maria, não é outro senão o Messias, o Filho de Deus, que remirá o seu povo do pecado; na sua qualidade de pai, José dar-lhe-á o nome de Jesus. Terceiro, o anjo exorta-o a não hesitar e a aceitar Maria como esposa. Tal foi a celeste mensagem.
Que consolador despertar para José, e quem nos descreveria a doçura da sua conversação com Maria após esse sonho revelador? Que mudança acaba de operar-se! Qual não é, doravante, aos olhos de José, a dignidade de Maria! Já não é somente uma santa: é a Mãe do Messias, a Virgem de quem nascerá o Emanuel anunciado pelos profetas. E ele, José, será o esposo dessa Virgem admirável!
Doutro lado, qual não é a gratidão de Maria para com o esposo, cujo coração se mostrou tão magnânimo! A provação serviu para unir mais estreitamente essas duas almas. Era exatamente o que Deus visava: revelar mutuamente, a Maria e a José, a virtude e santidade de ambos, fundir-lhes os corações numa recíproca estima, num amor inabalável. O casamento deve ser antes de tudo a união das almas e a fusão dos corações.
Não havia mais que adiar as solenidades do casamento. De ordinário, ao cair da noite, o noivo, acompanhado de músicos, escoltado pelos amigos, dirigia-se à casa da noiva que, coberta de véu, se juntava então ao cortejo com suas companheiras. Alumiado por tochas, o préstito demandava a casa do esposo. A noiva era introduzida, lavrava-se o contrato, e os esposos recebiam a benção nupcial. Vinham em seguida o festim de bodas, folguedos e danças que se estendiam, às vezes, por vários dias. Tal o costume dos israelitas. Sem dúvida, as coisas passaram-se pouco mais ou menos assim no caso de Maria e José. Mas ignoramos se isto se deu em Nazaré ou em Jerusalém.
O casamento de São José com a SS. Virgem, e os incidentes habituais, neste passo da vida, é um assunto que muitas vezes tentou o pincel ou o cinzel dos artistas cristãos. Eis alguns traços típicos. Para indicar a dúvida de São José, o mestre que esculpiu os admiráveis assentos do coro de Amiens representa o nosso santo na iminência de deixar a casa da noiva: José fez seus preparativos de partida; alguns embrulhos e o manto jazem-lhe aos pés; apesar da sua angústia, ele acaba por adormecer, enquanto (segundo um quadro de Luini, Milão) Maria, cheia de confiança em Deus, se ocupa tranquilamente em trabalhos de agulha. Esclarecido pela mensagem do anjo, José cai de joelhos; pede perdão a Maria por ter pensado em abandoná-la. Maria perdoa-lhe com bondade, estende-lhe uma das mãos, conservando a outra apoiada na Sagrada Escritura, pois estava meditando. Já anteriormente, no momento do noivado, recebendo das mãos do sacerdote o ramo florido, José lançara-se aos pés de Maria, reconhecendo-se indigno da honra que lhe era feita (Amiens). São Joaquim figura entre as testemunhas do noivado e abraça ternamente José (Luini). Os noivos deixam o lugar onde receberam a benção do sacerdote: Maria lê atentamente um livro; José anda-lhe ao lado felicíssimo dos nobres sentimentos de sua noiva (Missal antigo). Gaddi (Florença) e Rafael reproduziram maravilhosamente a calma, o recolhimento, a gravidade de José, a graça, a confiante e alegre simplicidade de Maria. E todos os mestres — os antigos como os modernos — concordam em colocar a cena dos desposórios no Templo de Jerusalém, ou pelo menos nas imediações do Templo, que forma então um fundo majestoso. Efetivamente, era esse um matrimônio contraído “diante de Deus”, tão alta era a virtude, tão belas as disposições dos dois esposos! O próprio Espírito Santo fazia a alegria daquela solenidade.
 O casamento de Maria com José, repitamo-lo, foi obra da Providência que assim conduzia todas as coisas para um fim admirável. No testemunho da Igreja e dos Santos Padres, a união assim contraída foi um verdadeiro matrimônio: José tornava-se na realidade, o esposo de Maria e o pai legal de Jesus. A genealogia de José coincidia com a do Salvador. O casamento de José com Maria estabeleceu legalmente que Jesus era descendente de Davi.
Essa união é, ao mesmo tempo, a última preparação, a preparação imediata para o advento do Salvador neste mundo. A casa de Davi é restabelecida; o herdeiro de todas as promessas pode vir. O mistério da Encarnação, que Deus na sua sabedoria ainda não quer revelar, oculta-se sob o véu do matrimônio, a que confere uma dignidade singular e graças preciosas. Por essa união e pelas próprias circunstâncias que a acompanharam, Maria acha em José uma testemunha irrecusável da sua virgindade, um arrimo dedicado, um conselheiro cheio de sabedoria, um consolador na sua difícil missão. Os esposos e as virgens terão doravante, em Maria e José, um modelo admirável e poderosos protetores. A partir desse instante, os trabalhos dos dois esposos, suas solicitudes, suas provações cotidianas são, de alguma sorte, patrimônio do reino de Deus, uma cooperação com a vida do Homem-Deus, com a sua obra redentora.
Quanto a São José, que vantagens lhe resultavam desse casamento? Para ele, era a inefável felicidade de viver na intimidade de Maria e de Jesus; o privilégio de recolher o amor e a gratidão da Sagrada Família, de quem era o chefe. Jesus e Maria eram-lhe submissos! Haveria em Israel felicidade maior, dignidade comparável à sua?
Finalmente, esse casamento ensina a todos nós que o estado conjugal é uma vocação santa, estabelecida por Deus; que as uniões contraídas com as disposições requeridas são escritas no céu e podem ser uma fonte de bênçãos para a sociedade e para a Igreja. Vemos também como a Providência guia todas as coisas com força e suavidade, não raro mesmo apesar dos obstáculos aparentemente insuperáveis, e que não podemos fazer coisa melhor do que nos abandonar com confiança, ao amor de Nosso Pai celeste.