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17/03 - Em honra a São José - excertos do livro

SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja
Pe. Maurício Meschler, S.J.
Edição de 1943



6.   O HOMEM DA VIDA EXTERIOR
A vida do homem não é nem exclusivamente interior, nem exclusivamente exterior. Composto de corpo e alma, o homem é chamado a exercer a sua atividade numa dupla esfera. Além disto ele não vive isolado, mas em sociedade, entrando forçosamente em relações com seus semelhantes. A sua vida é, pois, mista, isto é conjuntamente exterior e interior.

São José conheceu essa lei da nossa natureza. Por isso, deparamos nele, simultaneamente, a vida interior e exterior. Não foi um ermitão. Não foi um daqueles essênios, tão numerosos então na Judeia. Vivia na sociedade de seus semelhantes e,antes de tudo,na da Sagrada Família, de que era chefe, sustentáculo e protetor.
Demais, estava em relações, mesmo frequentes, com seus concidadãos e exercia uma profissão que necessariamente, o punha em contato com as pessoas de fora. Teve de viajar repetidas vezes. Cada ano, no mínimo, Ele ia a Jerusalém para as grandes solenidades. Constrangido a fugir por ordem de Deus, foi até o Egito e ali permaneceu certo tempo. Se a arte cristã o representa com um bordão é, entre outros significados, para lembrar essas viagens.
Finalmente, São José exerceu uma profissão, uma profissão bem vulgar e material, porque pelo seu trabalho devia assegurar à Sagrada Família o pão cotidiano. Eis porque nas pinturas ou mosaicos dos primeiros séculos, vemos um serrote ou um machado junto do presépio: é a ferramenta do carpinteiro.
Mas essa vida exterior do nosso santo foi uma vida admiravelmente ordenada e perfeita. Pelas razões seguintes: primeiramente, por causa dos motivos que o faziam cumprir seus deveres de estado, assim como pela sua obediência à vontade de Deus, pelo seu amor a Jesus e a Maria, que formavam sua família, muitíssimas vezes também por caridade para com o próximo e pelo nobre desejo de lhe ir em auxílio. Se ele se misturava aos seus concidadãos, nunca era por um sentimento de tédio ou de cansaço no seu labor, por desocupação, por capricho, unicamente para seu prazer, à cata de novidades ou de consolações. É bem certo que suas viagens a Nazaré e ao Egito não foram viagens de recreio. De acordo com os princípios da perfeição e com as máximas dos santos, a vida exterior deve de alguma sorte decorrer da plenitude do espírito interior, deve ser uma efusão do nosso amor a Deus e ao próximo.
Em segundo lugar, a vida exterior de São José foi uma vida admiravelmente ordenada e perfeita, pela maneira como se comportava nela. Entregava-se a ela sem que nada tivessem a sofrer o cuidado pela sua vida interior, a vigilância sobre sua alma e a sua união com Deus. Sua vida exterior era como que o desabrochar de sua alma. O pensamento de Deus, o amor de Deus inspiravam, acompanhavam e enobreciam cada um de seus atos, e transformavam-nos em outros tantos atos de virtude. Longe de ser comprometida pela vida exterior, a vida interior enriquecia-se continuamente com todas as dificuldades e contrariedades, com todos os sacrifícios que se apresentavam. A caridade divina ia também crescendo incessantemente e o santo desfrutava, além disso, a consolação de ter sido útil aos seus semelhantes.
São José dá-nos assim uma grande lição. Todos nós temos que levar uma vida exterior. Mas é preciso ordená-la. Todos nós temos que trabalhar. Mas é preciso trabalhar devidamente. E aqui há dois escolhos a evitar: a falta e o excesso.
A falta. Muitas vezes trabalhamos de menos: é a ociosidade, o desperdício de tempo, a falta de seriedade, a negligência em consagrar a nossa vida, as nossas forças e os nossos talentos à glória de Deus e ao bem do próximo. Outras vezes, também, o mal não consiste em não fazermos nada, em não nos darmos a nenhuma ocupação, mas em nos gastarmos numa multidão de negócios inúteis, em nos ocuparmos de coisas que não pertencem à nossa vocação, nem ao; nossos deveres de estado, que não têm nenhuma utilidade real nem para nós mesmos, nem para nossos semelhantes. Agir e trabalhar assim não é agir nem trabalhar: é remexer-se, agitar-se, seguir o próprio capricho. É assim que trabalham certas aves que passam seu tempo a alisar a plumagem, a saltitar de um barrote a outro da gaiola, a ensaiar um trinado, a comer e a beber. Acaso é trabalhar ir de visita a visita, de uma conversa a outra conversa, de um passatempo a outro passatempo e ter, para isso, todo o tempo à disposição? O trabalho, no verdadeiro sentido do termo, é o trabalho pedido pelos nossos deveres de estado, o trabalho útil, o trabalho em relação com a nossa vocação. Tudo o mais não passa de um meio de fugir ao tédio, de escapar à monotonia mortal. Examinemos seriamente, perante Deus e perante nossa consciência, de que maneira empregamos nossa vida, nossas forças e nossos talentos. Um dia Deus nos pedirá conta não só do mau emprego, mas ainda do desperdício do tempo. Um homem de coração deveria envergonhar-se de comer sem ter merecido a sua comida, e de ficar tranquilamente de braços cruzados, quando tão grande número de seus semelhantes tem de submeter-se a um duro labor, quando o Salvador, Sua Santa Mãe e São José tiveram de ganhar penosamente o pão quotidiano. O pão que não se ganhou é um pão roubado, ao menos diante de Deus, pois está escrito: — “Quem não quiser trabalhar, também não há de comer” (2Tes 3,10). E, além disso, vejamos se, cumpridos os nossos deveres de estado, não nos resta nada a fazer para auxiliarmos nosso próximo, para cumprirmos a nossa missão social, para correspondermos às necessidades da nossa época tomando parte ativa nas obras de caridade. Não é de todos os instantes a prática do grande preceito do amor de Deus e do próximo? Ponha-se cada um a trabalhar pelo bem de todos, e em breve estarão resolvidas as questões sociais. Todos nós podemos muito, se quisermos. Façamos ao menos o que pudermos. Isto basta.
Em segundo lugar, o excesso. Podemos trabalhar demais. Trabalha-se demais, quando o trabalho exterior se faz em detrimento do interior, em detrimento da nossa consciência e de Deus; quando, absorvidos pelo exterior, descuramos o propor-nos uma intenção mais alta e sobrenatural; quando nos damos a essas ocupações sem pormos nossa confiança em Deus; quando nos apegamos a elas servilmente, sem pensar na eternidade. Tomado no sentido verdadeiro do termo e com a sua significação cristã, o trabalho exercido para Deus e para a salvação de nossa alma é uma obrigação e uma honra para o homem. É a condição do seu progresso, e da sua felicidade no tempo e na eternidade. No céu, a nossa parte será, na realidade, a que nos tivermos granjeado pelo nosso trabalho. Compreendido diversamente, o trabalho perde toda a sua significação; torna-se uma divindade cruel, um Moloc que devora o corpo e a alma do homem. Enfim — e é a isto que cumpre chegar sempre — o trabalho é para o homem e o homem é para Deus.
Não é, pois, um fim, mas um meio... Destarte, afim de não trilharmos caminho falso em nosso trabalho, propiciemo-nos cada dia alguns instantes para nos recolhermos e orarmos.

Como se vê, São José é o modelo indicado para o nosso século, em que se faz do trabalho um ídolo. Pela justa medida que ele soube guardar, pela sabedoria com que uniu a vida interior à exterior, Ele é o padroeiro tanto da classe operária como dos homens apostólicos. Digamos melhor: é o modelo de todos os homens. Peçamos-lhe a graça de imitá-lo neste ponto: essa graça é uma das que entram nas suas atribuições.

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