20/03 - Em honra a São José - excertos do livro

SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja
Pe. Maurício Meschler, S.J.
Edição de 1943


9.   O PADROEIRO DA BOA MORTE
Numerosos são os males, múltiplos os sofrimentos do homem neste mundo. Entre esses sofrimentos, um há a que ninguém escapa: todos nós devemos morrer, porque todos nós pecamos. A morte é o estipêndio do pecado.

A morte é um sofrimento duro e amargo para a nossa pobre natureza. É, antes de mais nada, o termo da nossa vida física. A íntima união do corpo e da alma, união que constitui a vida, é quebrada pela morte. A separação é dolorosa. O corpo vai reduzir-se a pó. A alma é forçada a abandonar essa caduca morada. A separação (é humilhante porque é o castigo do pecado, uma espécie de execução que separa um do outro, o corpo e a alma, como dois réus e cúmplices, para entregar a alma à eternidade e o corpo à terra, onde ele se dissolve aos poucos para se tornar o que já não tem nome em língua alguma.
Mas a morte não é só o termo da nossa vida terrena. É também o começo da nossa vida no além, a entrada na eternidade, a hora que nos fixa para sempre uma recompensa ou um castigo cuja grandeza excede todo pensamento. Enfim, a morte põe-nos em presença de Deus. Faz-nos comparecer perante Ele para sermos julgados, punidos ou recompensados, com justiça e irrevogavelmente. Numa palavra: a morte é a solidão, o abandono, a dor, a angústia. Então ninguém nos pode vir em auxílio. A luta suprema trava-se dentro de nós mesmos. O homem é impotente. Só do céu pode vir o socorro.
Importa, pois, nessa hora decisiva, termos um bom padroeiro para nos assistir e consolar; para nos ajudar a ter uma boa morte, calma, suave e edificante. Que padroeiro melhor do que São José, já que morte nenhuma foi mais bela que a sua? Tudo se reuniu para tornar feliz e consolado na hora do trânsito. No passado, ele vê uma vida inocente e pura, consagrada à prática das mais nobres virtudes; vê serviços sem número prestados a Jesus, a Maria, à Igreja, à humanidade toda; uma vida de trabalhos e sofrimentos aceitos com paciência, em espírito de fé e caridade. O passado nada lhe deixa, pois, a lamentar, nada a temer; só lhe oferece motivos de esperança.
O presente? Já vimos como São José deixou esta vida. Aqui ainda, tudo concorre para lhe tornar a morte não somente boa, mas consoladora e doce. Ele expira nos braços de Jesus, seu Filho e seu Deus, e nos braços de Maria. E Jesus e Maria, nessa hora suprema, recompensam por graças especialíssimas tudo o que devem ao amor de José. Amparam-no e consolam-no; confortam-lhe e alegram-lhe o coração pelas graças mais doces. O Espírito Santo verte-lhe na alma a paz e a alegria.
O futuro? Para José, após uma curta espera no Limbo, onde os santos da Lei repousam em paz, é a alegria de tornar a ver Jesus ressuscitado, é o reino da felicidade eterna, onde o Pai Celeste o acolherá para estabelecê-lo sobre todos os seus bens (Lc 12,37), aquele que tão dignamente o representou junto ao Salvador e que se mostrou um servo bom e fiel. A morte de São José tem a beleza, a calma e a majestade de um tranquilo ocaso. Na verdade, a morte de um santo é obra-prima da graça, um doce perfume diante do Senhor! (Sl 115,15).
A morte de São José foi, pois, maravilhosamente bela e desejável. Ele pode ajudar-nos a alcançar morte semelhante. Pode-ode uma tríplice maneira. Primeiramente, seu exemplo incentiva-nos a não temer a morte em Jesus Cristo e com Jesus Cristo, em sentimentos de fé, de confiança e de caridade. As graças celestes que o assistiram e consolaram na sua hora derradeira, a Igreja põe- nas à nossa disposição, e oferece-nos, mui particularmente, o próprio Salvador no Santo Viático. Jesus está lá para nos sustentar na luta suprema. Unamos ao seu sacrifício o nosso sacrifício derradeiro. Ele o acolherá com misericórdia.
Em segundo lugar, São José ajuda-nos pelo exemplo da sua bela vida, que nos ensina a melhor maneira de nos assegurarmos uma morte feliz. Como todas as coisas em nossa vida, a morte deve ter a sua preparação. Não há nada mais certo do que a nossa morte; e nada é mais importante, desde que a morte decide da nossa eternidade. Cumpre, pois, fazermos da nossa vida uma preparação para essa hora decisiva. A morte não é só o termo da vida; é o resultado e, por assim dizer, o eco da vida. E não basta prepararmo-nos para morrer; devemo-nos manter sempre prontos, porque a morte vem rápida e imprevista, e vem só uma vez. E em que consiste essa preparação, vemo-lo pela vida de São José, pela sua pureza, pela sua piedade, pela sua infatigável dedicação, pelo seu amor a Jesus e Maria.

Em terceiro lugar, a devoção a São José é um excelente meio para nos alcançar uma boa e santa morte. De maneira geral, as nossas devoções são uma espécie de aliança, que durante a vida contraímos com os santos. Mas é sobretudo na hora da morte que colhemos a recompensa. Portanto, frequente e diariamente, recomendemos a São José a nossa hora derradeira. Ele não nos abandonará se nos tivermos colocado debaixo da sua proteção. Felizes seremos nós se São José nos fechar os olhos!