22/03 - Em honra a São José - excertos do livro

SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja
Pe. Maurício Meschler, S.J.
Edição de 1943


11. CONCLUSÃO 
A Sagrada Escritura nos ensina que o povo de Deus, ao sair do Egito, levou consigo os ossos de José, por gratidão para com aquele que seu benfeitor (Ex 13, 19). Devem os cristãos menos gratidão a São José? Por certo, lhe devemos muito mais. Paguemos a nossa dívida por uma filial devoção ao nosso glorioso benfeitor.

Vejamos como se pode praticar essa devoção. Os fiéis servos de São José não deixam passar nenhum dia sem honrá-lo por um ato de piedade, sem invocá-lo e sem se porém debaixo de sua proteção. Em cada semana, um dia, a quarta-feira, lhe é especialmente consagrado. Este costume data de meados do século XVII; nasceu num convento de beneditinos, em Châlons. — Com esse intuito pode-se recitar o pequeno ofício das Alegrias e Dores de São José. Os Papas Pio VII, Gregório XVI e Pio IX concederam indulgências a essa recitação.
No curso do ano eclesiástico, temos três festas em honra do nosso santo: a festa propriamente dita de São José a 19 de março, instituída pelo Papa Sixto IV, no século XV; a festa dos Desposórios a 23 de janeiro, celebrada desde o século XVI nos conventos dos franciscanos e dominicanos, e depois estendida à Igreja inteira pelo Papa Inocêncio XI, desde o reinado do imperador Leopoldo I; por fim, a festa do Patrocínio de São José, no terceiro domingo depois da Páscoa (*) prescrita por Pio IX em 1847. Já dissemos que o mês de março foi consagrado a São José pelos Papas Pio IX e Leão XIII. Além disso, cada uma das festas acima lembradas pode ser precedida ou seguida de uma piedosa novena.
Na série das festas eclesiásticas, larga parte é, pois, dedicada à devoção de que falamos e não temos senão que atender aos convites da Igreja. Mas, além disso, as circunstâncias pessoais, as nossas necessidades, dificuldades e provações de cada dia oferecem- nos continuamente ensejo de praticar essa devoção, de recorrer à São José, de reclamar-lhe a assistência.
É ainda uma excelente prática o solicitar cada dia três graças por intercessão dele: a graça de amar sempre mais a Jesus e a Maria; a graça de saber, a seu exemplo seu, unira vida interior à exterior; e a graça preciosa de uma boa e santa morte. Não é esse, aliás, o tríplice caráter da vida de São José? E parece que ele tem juto a Deus um crédito especial para nos alcançar essas mesmas graças.
A guisa de conclusão resta-nos lembrar alguns dos motivos que nos devem inspirar uma devoção confiante em São José. Primeiramente São José merece as nossas homenagens pela sua eminente santidade. Ele nos toca de perto, interessa-se por nós, e sabemos de que benefícios lhe somos devedores. Como vimos,ele se liga às próprias origens do cristianismo, visto ser o pai legal do Nosso Senhor Jesus Cristo. O Senhor reconheceu-lhe esse título, foi-lhe submisso, quis depender dele, santificou-o pela sua presença durante longos anos. Entre as santas relíquias consagradas pelo contato do Verbo Encarnado, haverá uma só que tenha participação mais dessa consagração? Seus olhos contemplaram tantas vezes o Salvador, suas mãos o tocaram, seus braços o carregaram! Seu coração pulsou ao contato do Coração do Menino-Deus. O que São José fez por Jesus, faz por nós. Provemos-lhe, pois, a nossa gratidão! Nunca lhe testemunharemos tanta gratidão como ele merece efetivamente.
Em segundo lugar, São José tem direito às nossas homenagens em razão do caráter todo amável da sua santidade. Ele é o esposo de Maria, seu protetor e arrimo. É o anjo da guarda da santa infância de Jesus. Aparece com Jesus Menino, e desaparece após a infância do Salvador. Por isso, o símbolo da sua missão especial e do seu papel no plano divino não é outro senão o próprio Jesus: representa-se São José segurando Jesus nos braços ou estreitando-o ao coração.
Amáveis são também as virtudes do nosso santo: pureza, fidelidade, abnegação, humildade, sabedoria, caridade; e cada uma dessas virtudes convida-nos a escolhê-lo para o nosso conselheiro, protetor e pai; a dar-lhe por nossa vez toda a confiança que Jesus e Maria lhe testemunharam.
Em terceiro lugar, São José merece as nossas homenagens e a nossa confiança por ser — permita-nos a expressão — um santo “prático”, particularmente em condições de nos auxiliar em todas as nossas necessidades. A sua vida passou por todas as alternativas da existência humana. Conheceu as alegrias e as provações desta. Como Leão XIII o faz notar numa encíclica, parece que Deus quis assim dar-nos em São José um modelo em todas as circunstancias que podem ser as nossas, um protetor tanto mais útil quanto maior a sua experiência. São José sabe, porque o experimentou, o quanto pode ser pesada e difícil a missão de um chefe de família, quando está a braços com a pobreza ou com a perseguição. Conhece, por experiência, o que é mandar ou obedecer. Em toda realidade, ele santificou por sua vida o estado conjugal e o estado da virgindade, a vida no mundo e a vida religiosa, a vida ativa e a vida contemplativa. Coroou a sua vida pela mais santa das mortes.
A sua experiência estende-se a tudo. A sua proteção não exclui nada. É em particular nas circunstâncias cotidianas de existência, nas cruzes e nas provações da vida ordinária, que ele parece aproximar-se ainda mais de nós e assegurar-nos um socorro eficaz. Ele foi colocado sobre toda a casa do Senhor, é o Pai da grande família do Salvador. A sua caridade, a sua autoridade tornam-no, pois, acessível às necessidades de todos. Foi dito de José, filho de Jacó, que tudo lhe prosperava nas mãos (Gn39,3). Apalavra aplica-se melhor ainda ao nosso santo patriarca. Seu nome é invocado em toda parte. Seus clientes são inúmeros. Mas o seu crédito e a sua caridade nunca se esgotam.
Enfim, São José não é só um santo “prático”, é um modelo singularmente apropriado à nossa época. É um santo “moderno”. Toda época tem seus perigos e suas necessidades particulares e, no seu amor e na sua infinita sabedoria, Deus opõe a esses perigos e a essas necessidades o remédio de que necessitam. Desde alguns anos, um novo poder firmou-se na nossa sociedade: o temível poder dos trabalhadores, dos operários. Não falamos daqueles que trabalham como Deus quer que se trabalhe, que trazem ao seu labor os sentimentos cristãos do dever cumprido, da confiança guardada apesar de tudo. Desses, nada há a temer. O trabalho assim compreendido é tão antigo como o mundo, é o apanágio de todos os filhos de Adão, é uma honra para o homem. Esse trabalho, Deus o abençoou, santificou, por assim dizer, o divinizou em Nosso Senhor Jesus Cristo. Falamos do trabalho suportado sem trégua, sem resignação, sem o menor pensamento em Deus, sem nenhum sentimento sobrenatural. É uma fonte de egoísmo, de cupidez, que, em vez de apagar, acende a sede dos gozos. É um princípio de orgulho, é o homem a divinizar-se a si mesmo. É a aspiração à independência. É a loucura de querer criar por si mesmo e de, para chegar a esse fim, subverter a antiga ordem das coisas, afim de, sobre as ruínas amontoadas, suscitar uma sociedade sem Deus e sem religião. No fundo, temos aí o materialismo, a anarquia, o ódio das raças e das classes.
Onde está o remédio que Deus preparou para tantos males? Onde está o homem novo? Onde a autoridade nova que tomará a defesa do direito, da honra devida a Deus,do verdadeiro progresso da humanidade?Esse homem é aquele, cuja vida foi uma vida de sacrifícios no dever, de obediência, de confiança em Deus, de humildade, de trabalho. Esse homem é São José, o homem do silêncio, nobre pelo nascimento, humilde por sua escolha. É aquele que, salvando a Sagrada Família, já uma vez salvou a Igreja dos seus perseguidores. E compreendemos como e porque, mormente desde o último século, Deus inspirou à sua Igreja multiplicar as honras prestadas a São José. Compreendemos como e porque, precisamente no momento em que a crise temível irrompia, São José foi proclamado Padroeiro da Igreja universal. É a ele que estão confiados os destinos da Igreja. Tenhamos confiança nele: ele sabe proteger-nos.
Terminemos por estas palavras de Santa Teresa (Livro da vida, cap. VI), feitas para nos inspirarem, em todas as circunstâncias, a mais inteira confiança em São José.
— “Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José, e encomendei-me muito a ele... Não me recordo de lhe haver, até esta hora, suplicado graça que tenha deixado de alcançar. Coisa admirável são as grandes mercês que Deus me há feito por intermédio desse grande santo, e os perigos de que me há livrado, tanto corporais como espirituais. A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa determinada necessidade; quanto ao glorioso São José, sei por experiência de que socorre em todas. Quer o Senhor dar a entender que, como lhe foi sujeito na terra —- pois São José na qualidade de pai, embora adotivo, podia mandar- lhe — assim no céu atende a todos os seus pedidos. O mesmo, por experiência, viram outras pessoas a quem eu aconselhava que se encomendassem a ele; e hoje há muitas que lhe são devotas e que verificam cada dia esta verdade.

...De alguns anos para cá, parece-me que sempre, no dia de sua festa, lhe peço alguma coisa e nunca deixei de a ver cumprida. Se o pedido não é muito razoável, ele o endireita para o meu maior bem. Não conheço pessoa que deveras dele seja devota e lhe renda particulares obséquios, que não medre na virtude, porque muitíssimo ajuda ele às almas que se encomendam ao seu patrocínio... Só peço, por amor de Deus, que o experimente quem não me crer; e verá por experiência o grande bem que faz encomendar-se a este excelso Patriarca e ter-lhe amor. Em particular as pessoas de oração sempre deveriam ser-lhe afeiçoadas. Não sei verdadeiramente como se pode pensar na Rainha dos Anjos, no tempo que passou com o Menino Jesus, sem dar graças a São José pelo auxilio que lhes prestou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine, tome este glorioso santo por mestre,e não errará no caminho”.
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(*) Atualmente, na 4ª feira após o 3º domingo.