Capítulo XXXVIII - Demasiado tarde?

CENTELHAS EUCARÍSTICAS
 PEQUENA COLEÇÃO
DE
Pensamentos e afetos devotos
a
JESUS SACRAMENTADO


XXXVIII
Demasiado tarde?
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AQUI, diante do Tabernáculo, quero meditar o valor deste grito que me saiu do coração num momento de desconforto. Demasiado tarde!... A minha voz não teve força para dizer mais... E chorei!
É demasiado tarde. E por quê? Porque os meus anos atingem já a medida marcada por Deus: a morte não vem longe; as forças do corpo vão alquebrando-se, enquanto que, por um contraste fatal, outras energias se vão revigorando mais e mais.
Eu vou morrendo a pouco e pouco, e os meus defeitos, que eu não quis corrigir quando tinha força e tempo, longe de morrerem, se vão tornando cada vez mais prepotentes. Eu envelheço, mas parece rejuvenescer a ira que me arrasta a tantas impaciências, a soberba que me sugere e impõe tantas vaidades, a sensualidade que me impele a tantos atos de gula, que me induz a procurar mil comodidades da vida e me suscita em toda a alma obstinadas repugnâncias à mortificação... Como poderei agora, tão perto já da morte, vencer inimigos que sempre tenho acarinhado? Como poderei agora alcançar vitória contra um adversário que nunca quis derrotar?... Sempre ouvi dizer que, para vencer uma paixão ou corrigir um defeito, se requerem anos e anos de luta cheia de sacrifícios e de coragem; e como o conseguirei eu agora, quando me restam poucos anos de vida e me encontro tão enfraquecida de forças morais? É demasiado tarde!
Demasiado tarde? Mas não será porventura algum inimigo oculto na minha alma que me sugere esta palavra desconfortante? Pode muito bem ser. Em tal caso, que prudência é a minha que me deixo subjugar por uma palavra, de cujo valor e proveniência posso e devo suspeitar?...
Será verdade que é demasiado tarde? Estou eu certa disso?... Quem foi que mo disse? Não foi Jesus certamente. Antes, Jesus está sempre aqui para me dizer o contrário; Ele repete-me sempre o seu venite ad me omnes, e depois me assegura que quem come a sua carne terá a vida em si... E dirá isto talvez somente aos jovens, e não a mim que já estou avançada em anos? Portanto, se me chama, é para algum fim: é porque quer melhorar-me e santificar-me. Se quer nutrir-me da sua carne é para fazer-me viver da sua vida, isto é, da vida da santidade. E será demasiado tarde para Jesus o domar as minhas paixões, algemá-las como escravas? Será demasiado tarde para ajudar-me a vencer os meus defeitos, a despojar-me dos meus maus hábitos e vestir-me de virtude? Contra o poder da sua graça que coisa são os hábitos mais inveterados, quando detestados e combatidos por uma vontade sinceramente resolvida a dar-se ao bem?
Demasiado tarde? Quantos dias melancólicos e cheios de desolação não me fez já passar esta palavra desconfortante! Persuadida de que já não estava em tempo de corrigir-me em nada, eu olhava com inveja tantas almas a progredir na virtude, e não podendo sacudir-me no meu desalento, em vez de competir com elas na carreira da santidade, deixava-as passar avante, e eu ficava-me atrás, a infinita distância. Aquele tempo preciosíssimo gasto em devorar-me em mim mesmo aquele estulto demasiado tarde, se o tivesse empregado em qualquer esforço para erguer-me e caminhar também eu, como faziam tantos outros, há esta hora talvez já tocasse os cimos da santidade, ou não estaria ao menos tão longe dela.
Que triste efeito não produz sobre as almas uma palavra não meditada aos pés de Jesus! Se eu tivesse perguntado a Ele o valor daquele demasiado tarde, teria logo compreendido que se tratava de um obstáculo lançado sobre o caminho do Paraíso pelo inimigo de toda a esperança, que procura sempre perder as almas incautas. Jesus me teria dito que Ele tanto lhe custa o conservar a inocência de São Luís de Gonzaga, como o abater a relutância dum Santo; o purificar a Madalena de toda a sordidez, como o converter momentâneo do bom ladrão. Ele me teria dito que não lhe custaria nada extirpar num momento do meu coração todos os defeitos que eu não soube e não quis erradicar em tantos anos de vida; Ele me teria dito que, mesmo que estivesse já nos extremos da morte, poderia fazer de mim, tão miserável, uma santa.
Portanto, o tempo para me pôr no caminho do fervor não me falta... O que me falta é um pouco mais de esperança na graça de Jesus; é a oração feita seriamente com este fim; é a perseverança no pedir, e aquele esforço sincero da minha parte para conseguir vencer-me e subjugar-me a mim mesma ao império da vontade divina. Se me resolvo de uma vez a combater corajosamente as minhas más inclinações, a combatê-las todos os dias, confiando sempre em Jesus, eu estou ainda em tempo de fazer muito, ou antes, a fazer quanto é necessário para me tornar santa.
Jesus está aqui. E que está Ele a fazer no Tabernáculo? Onde é que está escrito, quem jamais disse, que Jesus Sacramentado é aceitador de pessoas, e que no seu jardim recolha somente as flores de primavera, desprezando aquelas que desabrocham no tardio outono? Eu sou uma destas flores outonais, porque, em breve, chegarão para mim os gelos do inverno. Desprezar-me-á Jesus? Não reservará para mim um lugarzinho na sua coroa sempre aromosa dos perfumes da santidade? As neves da morte não caíram ainda a sepultar as minhas esperanças; estou ainda em tempo; Jesus ainda não me repudiou... Que farei eu, portanto?
Porei de mira o meu defeito principal e contra ele concentrarei todos os esforços da minha vontade. Todas as manhãs, ou na Comunhão ou na Missa, prometerei a Jesus fazer durante o dia algumas violências sobre aquele defeito; e à tardinha, durante a visita, farei um exame de consciência para saber se mantive a promessa da manhã; se alguma coisa tiver conseguido, oferecerei tudo a Jesus; se não, pedir-lhe-ei perdão. Mas, no entanto, todas as noites renovarei o propósito de recomeçar na manhã seguinte a batalha contra mim mesma e de combater até reportar completa vitória. É um empenho que tomo pessoalmente com Jesus, de servi-lo e amá-lo, flagelando quotidianamente a minha paixão dominante. Desta maneira estou certa de que Jesus tomará da sua parte o empenho de ajudar-me com a sua graça; e com estas duas armas, a graça de Deus e a minha boa vontade, persuado-me de que hei de triunfar.

E se por acaso o inimigo da minha alma voltar a insidiar-me com o seu estulto engano, eu lhe mostrarei o Tabernáculo de Jesus e, recordando-lhe as minhas novas resoluções e as minhas avigoradas esperanças, lhe farei compreender que, se pretende iludir-me ainda, arrastando-me pouco a pouco à desesperação, a sua tentação e as suas traições chegaram realmente demasiado tarde.