06/03 - Em honra a São José - excertos do livro

SÃO JOSÉ
Na Vida de Cristo e da Igreja
Pe. Maurício Meschler, S.J.
Edição de 1943

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5.   OS SANTOS REIS MAGOS
Após a apresentação de Jesus no templo, José voltou a Nazaré com Maria e o Menino (Lc 2,39). Mas logo, sem dúvida, a Sagrada Família tornou a Belém para ali se estabelecer de vez. Na realidade, Belém era a pátria de Jesus, o lugar do seu nascimento. Belém ficava próxima de Jerusalém e, a mais de um título, essa proximidade oferecia vantagens. Sabe-se que, posteriormente, na volta do Egito, José cogitou de fixar-se em Belém.

Podia haver um ano que a Sagrada Família residia em Belém quando, subitamente, uns Magos vindos do oriente chegaram a Jerusalém.
— “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” — perguntaram. — “Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2).
Essa pergunta, feita abertamente, perturbou Herodes e alvoroçou toda a cidade. Embaraçado, mas fingido, Herodes não achou nada melhor do que informar-se, junto aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, do lugar, onde devia nascer o Messias. Disseram- lhe que era em Belém. Herodes transmitiu a resposta aos Magos, recomendando-lhes informarem-se exatamente acerca do Menino e fazerem-no saber quando o achassem, dizendo: “afim de que eu também vá adorá-lo” (Mt 2,8). Guiados pela estrela que, para sua grande alegria, lhes apareceu de novo ao saírem da cidade, os Magos chegaram a Belém.
Os Magos vinham de uma região situada ao oriente da Judeia. Eram personagens nobres, sábios, talvez príncipes de sangue real. Ao que parece, conheciam os Livros Sagrados. Uma inspiração do alto lhes fizera saber que, ao aparecimento de uma estrela extraordinária no céu eles deveriam procurar o Rei-Messias para adorá-lo.
Essa estrela apareceu na hora do nascimento ou um pouco mais tarde e, desde então, eles o tomaram como um dever seguir essa indicação. É o que podemos inferir do seu aparecimento junto ao presépio do Salvador. Vieram, pois, a Belém e acharam a morada do Menino-Deus. Sem dúvida, pararam no khan da cidadezinha, com seu séquito, e mandaram perguntar à Sagrada Família se podiam apresentar-se, acrescentando que pela indicação de uma estrela, tinham vindo para adorar o Menino. São José recebeu os enviados com a sua cortesia habitual.
Por seu turno os Reis Magos apareceram com seus servos trazendo, em cestas e caixinhas, preciosas dádivas, pois no oriente ninguém se aproxima de um príncipe sem lhe oferecer algum rico presente.
Maria acolheu os nobres visitantes com graciosa simplicidade. Jesus repousava-lhe nos braços. A mista dele, eles se lhe prostraram aos pés, peneirados de fé viva e profunda humildade. Adoraram-no com amor, ofereceram-se-lhe sem reserva. Em verdade, Eles eram sábios e eram reis! A sabedoria do seu espírito, a real grandeza do seu coração não se escandalizaram ao verificar que o Menino-Deus era desconhecido em Jerusalém. Não os desconcertaram a simplicidade e a pobreza da habitação de Belém. Sem julgar pelas aparências, eles seguiram as inspirações do seu coração e creram no que, Deus lhes revelava. 
Tomando então dos presentes que os servos carregavam envoltos em tapetes preciosos, ofereceram a Jesus ouro, incenso e mirra —dádivas misteriosas a simbolizarem os sentimentos do seu coração, — a fé, o amor, a adoração — assim como a divindade, a realeza e a missão redentora do Menino.
Jesus aceitou essa homenagem, cuja significação conhecia. Em retribuição, derramou na alma dos Santos Reis a abundância de suas graças. Abençoou neles as primícias e os precursores dos gentios. Sem dúvida, conversaram os reais peregrinos em seguida com Maria e José, que, com nobre simplicidade, relatavam as circunstâncias do advento do Salvador. Pela primeira vez, Maria instruiu representantes do mundo pagão e José tomou parte nesse apostolado: tornados cristãos, os Magos levaram a fé para o seio do seu povo.
Todavia, não passaram por Jerusalém. “Recebendo, em sono, um aviso do céu para que não fossem ter com Herodes”, que resolvera perder o Menino, “Eles voltaram para a sua terra por outro caminho” (Mt 2,12) — o caminho que, ao sul, vai atravessar o Jordão.
A maravilhosa visita dos Magos foi uma alegria imensa para Maria e José. O nosso santo folgou de encontrar-se com aqueles piedosos personagens cujos sentimentos tinham mais de uma analogia com os seus. Mas sobretudo se alegrou pela grande honra feita a Maria e a Jesus. A sabedoria do oriente viera prestar homenagem à Divina Sabedoria daquele humilde Menino. Que magnífica revelação da realeza do Salvador! Apenas nascido, começa Ele a reinar. É pobre, e depositam-lhe aos pés o ouro e as riquezas. Das regiões longínquas, Ele chama a si servos e adoradores. O céu e a terra lhe obedecem. Seus inimigos tremem ao simples anúncio do seu advento.
O mistério da adoração dos Magos é, por assim dizer, o Tabor da santa infância de Jesus. Na sua alegria, José podia ter antecipado as palavras de São Pedro: — “É bom estar aqui; levantemos aqui três tendas”. Finalmente, como não ver nesse mistério da vocação dos gentios um prenúncio do papel de São José em relação às Missões entre os infiéis? Um dia, com efeito, a Igreja proclamá-lo-ia Padroeiro das Missões.

Um antigo mosaico de Notre-Dame de Paris (século XIII) indica otimamente a parte tomada por São José nesse mistério e o lugar importante que ele aí ocupa: o santo está debaixo de um baldaquim; apoia-se no seu bordão; observa, e parece esperar a homenagem dos reis visitantes. Mais tarde, Fra Angélico mostra-nos São José conversando com um dos Reis Magos, cuja fé, sem dúvida, ele esclarece; ou então abrindo uma caixinha que encerra um dos ricos presentes trazidos, afim de oferecê-lo ao Menino-Deus em nome dos gentios. Não é já o Padroeiro das Missões?